Artesão sergipano Véio é homenageado na Vila do Forró 2026
Com réplicas de quatro metros de altura, Governo celebra os 70 anos de arte e a trajetória internacional do mestre de Nossa Senhora da Glória
Cores vibrantes, poesia em madeira, fé, formas e muita cultura sergipana em cada peça do artesão sergipano Véio, que está sendo homenageado pelo Governo de Sergipe este ano na Vila do Forró. Quatro esculturas do artista reproduzidas em quatro metros de altura pelo escultor Elias Santos foram instaladas na entrada do maior arraiá à beira-mar do Brasil. A iniciativa criativa, executada pela Secretaria de Estado do Trabalho, Emprego e Empreendedorismo (Seteem), em parceria com a Fundação da Cultura e Arte Aperipê (Funcap) e o Banco do Estado de Sergipe (Banese), tem como objetivo valorizar a cultura popular sergipana e reconhecer a trajetória de um dos maiores representantes da arte local.
Natural do sertão sergipano, do município de Nossa Senhora da Glória, Cícero Alves dos Santos, mais conhecido como Véio, levou a identidade cultural de Sergipe para diversos países por meio de exposições e obras marcadas pela originalidade, criatividade e forte ligação com o imaginário popular. A homenagem ao seu trabalho reforça a importância de preservar e promover os talentos locais que transformam a cultura sergipana em patrimônio reconhecido dentro e fora do Brasil.
Ao ver suas criações reproduzidas na Vila do Forró, que abriu as portas ao público nesta sexta-feira, 29 de maio, e segue até 26 de julho, Véio expressou um misto de gratidão e surpresa com a sensibilidade da gestão estadual. “Eu tenho 70 anos de arte, de estrada, e é uma luta difícil para a pessoa que vem do interior do sertão e sair até fora do estado e do seu país. E aqui, pela primeira vez, assim, nessas administrações, eu vejo uma pessoa que teve uma visão totalmente diferente do passado, em termos da arte e do artista. Isso é uma oportunidade. É a primeira vez que a gente está participando, eu e outros artistas, em ter esse reconhecimento do Estado, dos seus governantes, em valorizar não só o nome, valorizar o artista e valorizar aqueles que vêm para ver coisas que eles nunca viram”, destacou.
Observando de perto as réplicas gigantes de suas peças na entrada da festa, o homenageado explicou o processo de dar vida à matéria-prima bruta e a mensagem que suas obras carregam. “Cada peça dessa eu crio uma imaginação de coisas que ninguém nunca viu. O abstrato é dessa forma. Você pode ver um tucano, você pode ver um tripé, você pode ver uma garça. É o que o admirador vê. Então, nós não precisamos fazer, vamos dizer, um animal. Você cria um animal não existente para que aquelas pessoas que gostam, que vejam a arte, admirem com algo que nunca viram. E, na verdade, o abstrato é isso. São obras que ninguém conhece e que é o artista mesmo que cria e que coloca para que a imaginação dos outros cresça também igual a dele”, explicou.
O início com a cera de abelha
A história de Véio com a arte começou muito cedo, enfrentando, inclusive, a incompreensão de quem vivia ao seu redor. Ele recorda que, aos 5 anos de idade, o instinto criativo já pulsava mais forte do que as convenções da época. “Desde os 5 anos de idade, eu não sabia o que era arte e nem valores artísticos. Eu comecei a trabalhar, trabalhar não, brincar, fazendo imaginações minhas e coisas do cotidiano com cera de abelha. Então, com 5 anos eu não tinha dúvida nenhuma que o que eu queria era arte, mesmo sem ter escolas para isso. Minhas primeiras obras eu tinha que fazer e desmanchar, porque não era aceito nem pelos meus pais nem pela comunidade, porque o menino brincava de cavalo de pau, e as meninas de boneca”.
A primeira grande vitrine
Superando as barreiras e o preconceito inicial, o artesão sergipano persistiu na habilidade de retratar o cotidiano, transformando madeira, memórias e sentimentos em arte viva. Com olhar visionário para o próprio trabalho, ele relembra o episódio curioso de quando buscou o Banese para conquistar sua primeira grande visibilidade na televisão.
“O Banese ia fazer uma divulgação para o pessoal tomar dinheiro emprestado, e eu procurei um amigo que trabalhava lá […] aí fui espalhando minha peças, e quando ele viu, chamou um moço que fazia as propagandas. Era Orlando da Propag, da Rua de Propriá. Fui logo dizendo: não vou cobrar nada, porque se eu disser que vou cobrar, não saía, eu queria era só sair, aí fechamos tudo. Eu paguei para ir, paguei para voltar, fazer as peças, mas com um mês e pouco eu estava na tela da televisão… ‘Banese, 19 anos, crescendo por amor à terra’, o meu primeiro começo foi suado assim”, contou com bom humor.
Reconhecimento internacional e filosofia de vida
Da infância entre agricultores ao reconhecimento internacional, Véio construiu uma trajetória marcada pela criatividade e autenticidade, inspirado pela cultura popular e pela liberdade de criar com a própria imaginação. Suas peças, que carregam a alma do sertão, já rodaram por vários países. “Eu fui subindo a escada assim, sem depender de cachê, nem de assinar papel e participando só, como diz a linguagem popular, pela ‘boia’. Participei de exposições na França, em Paris, em Veneza, na Suíça, em uma porção de lugares que tem o meu trabalho. O Museu do Folclore no Rio de Janeiro tem muitas peças, o Museu do Pontal, que vai fazer agora uma seleção para uma exposição, nós estamos lá no Pará com 250 obras e a exposição está muito divulgada”, celebrou.
Com simplicidade e autenticidade, Véio retrata em suas obras a fé e tradições populares. Ele explica que a sua relação com o público vai muito além da estética tradicional, buscando sempre provocar a mente de quem observa suas formas abstratas. “Eu faço meu trabalho assim, não importa se as pessoas dizem: ‘ôh coisa bonita’ ou ‘ôh coisa feia’. Não. Pra mim tanto faz ‘parabéns’ como ‘coitado’. O importante é que cada peça que eu concluo, eu acho bonita. Quando passa para as formas abstratas, é uma forma de forçar a mente do nosso povo de, pelo menos, perguntar: o que é isso que eu nunca vi? Então, ali, nós estamos dando uma oportunidade dele ter a imaginação dele da forma que ele queira e que imagine o que pode ser”, refletiu.

