Pesquisa premiada pelo Estado analisa impacto dos alimentos ultraprocessados no comportamento alimentar

Pesquisa premiada pelo Estado analisa impacto dos alimentos ultraprocessados no comportamento alimentar

Estudo aponta que esse tipo de refeição é consumida mais rapidamente e reduz menos a saciedade

A produção científica desenvolvida em Alagoas tem ampliado sua contribuição para o debate nacional e internacional sobre saúde pública e alimentação. Um exemplo disso é a pesquisa conduzida pela pesquisadora Bárbara Galdino, que investigou os efeitos do consumo de alimentos ultraprocessados sobre o comportamento alimentar humano. O estudo foi contemplado recentemente, pelo Governo de Alagoas, com o Prêmio de Excelência Acadêmica.

A pesquisa científica “A Meal with Ultra-Processed Foods Leads to a Faster Rate of Intake and to a Lesser Decrease in the Capacity to Eat When Compared to a Similar, Matched Meal Without Ultra-Processed Foods” analisou como o grau de processamento dos alimentos influencia a velocidade de ingestão e a sensação de saciedade após as refeições.

Os resultados indicaram que refeições compostas por alimentos ultraprocessados são consumidas mais rapidamente e promovem menor redução da capacidade de comer novamente, quando comparadas a refeições similares elaboradas com alimentos in natura ou minimamente processados.

Segundo a nutricionista, os achados chamam atenção por terem sido observados mesmo quando as refeições foram cuidadosamente pareadas quanto à densidade energética, fibras e macronutrientes.

“Isso sugere que o efeito não está apenas na composição nutricional, mas no grau de processamento dos alimentos, que alteram a forma como comemos e como nosso organismo responde à refeição”, explicou Bárbara Galdino.

Evidências sobre o ritmo alimentar e a saciedade

A pesquisa demonstrou que refeições com ultraprocessados exigem menor número de mastigações e mordidas, reduzindo o tempo necessário para que os sinais fisiológicos de saciedade sejam ativados. Como consequência, o consumo tende a ser maior antes que o organismo reconheça a sensação de plenitude.

Para a cientista, esse padrão ajuda a compreender por que esses alimentos favorecem o consumo excessivo no cotidiano: “Quando a ingestão acontece de forma muito rápida, o corpo não tem tempo suficiente para responder adequadamente. Isso mantém o indivíduo mais propenso a continuar comendo, mesmo após a refeição”, destacou ela.

O estudo também dialogou com aspectos comportamentais do ambiente alimentar contemporâneo, marcado por refeições rápidas, consumo distraído e alta disponibilidade de produtos de formulações industriais. Características como textura macia, elevada palatabilidade e facilidade de consumo favorecem o que a literatura científica descreve como ‘hiperfagia passiva’- um fator associado ao aumento do risco de obesidade e outras doenças crônicas.

Ciência, formação acadêmica e articulação institucional

Desenvolvida a partir de uma trajetória acadêmica que envolve diferentes instituições e grupos de pesquisa, a investigação contou com a atuação de Bárbara Galdino como pesquisadora vinculada ao Laboratório de Nutrição e Metabolismo (Lanum), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), e ao Laboratório de Imunobiologia da Inflamação (Labiin), da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

De acordo com a nutricionista, essa articulação foi fundamental para assegurar rigor metodológico e robustez científica ao trabalho. “A integração entre universidades e laboratórios permite somar expertises, infraestrutura e diferentes abordagens investigativas, fortalecendo todas as etapas do estudo”, avaliou ela.

Atualmente doutoranda em Saúde e Nutrição pelo Programa de Pós-Graduação da Ufop, a estudiosa afirma que essa formação multidisciplinar contribuiu para que os resultados dialogassem, tanto com a pesquisa acadêmica quanto com a prática clínica e a formulação de estratégias de promoção da saúde.

Os achados do estudo oferecem subsídios importantes para políticas públicas, diretrizes alimentares e ações de educação nutricional. Segundo a pesquisadora, evidências científicas como essas reforçam a necessidade de ações regulatórias voltadas à redução do consumo de alimentos ultraprocessados e à valorização de práticas alimentares mais conscientes.

“Aspectos como o ritmo das refeições, a mastigação adequada e a atenção plena durante a alimentação precisam ser considerados como parte das estratégias de enfrentamento da obesidade”, afirmou Bárbara Galdino.

O papel da Fapeal no fortalecimento da pesquisa em saúde

A nutricionista citou que o apoio da Fapeal através do Prêmio de Excelência Acadêmica, vai além do reconhecimento dos estudiosos. Instituído para valorizar a publicação discente em periódicos de alto impacto, a chamada integra uma política da Fundação voltada ao fortalecimento da pós-graduação stricto sensu em Alagoas, estimulando a produção científica qualificada e a consolidação dos programas de pesquisa.

“O financiamento à ciência é essencial para a produção de conhecimento seguro e de qualidade. O suporte da Fapeal fortalece a formação do pesquisador, amplia a visibilidade da ciência produzida em Alagoas e contribui diretamente para o avanço da pesquisa em nutrição e saúde no estado”, ressaltou ela.

Ao refletir sobre os passos seguintes de sua trajetória, a pesquisadora destacou que ainda há lacunas importantes a serem exploradas, especialmente em estudos de longo prazo que avaliem o consumo crônico de alimentos de formulações industriais em diferentes contextos populacionais. Para ela, ampliar esse olhar é fundamental para compreender, de forma mais completa, como as escolhas alimentares afetam a saúde ao longo da vida.

“A ciência precisa continuar investigando não apenas o que comemos, mas como comemos. É nesse detalhe, muitas vezes invisível, que estão pistas importantes para melhorar a qualidade de vida da população”, concluiu Bárbara Galdino, ao reforçar a importância de iniciativas que, como as da Fapeal, seguem investindo na ciência como ferramenta de transformação social.

Redação

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