Inserção de tecnologias é um desafio para o pequeno produtor rural’
Os pequenos produtores do Rio Grande do Norte inseridos no campo estão cercados de desafios, como a dificuldade no acesso à tecnologia e os altos custos da produção, ao mesmo tempo em que possuem forte potencial de desenvolvimento em áreas como fruticultura, cadeira leiteira e aquicultura. A chegada do acordo Mercosul-União Europeia traz mais um desafio: a forte concorrência para os produtos locais, conforme explicou Mona Nóbrega, gerente de Desenvolvimento Rural e Negócios de Impacto do Sebrae-RN, em entrevista à TRIBUNA DO NORTE. Confira:
Quais são as principais dificuldades enfrentadas pelos pequenos produtores para incorporar tecnologia às propriedades?
Muitos desafios estão envolvidos nesse processo, porque o produtor não tem tanto acesso à informação e às inovações que surgem para o campo. Então, é necessário que ele tenha apoio para que essa tecnologia seja aplicada. A gente trabalha no processo de transferência dessas tecnologias, acompanhando e fazendo com que ele possa testá-las. Um dos grandes desafios, no entanto, é o recurso necessário para fazer o investimento, além da forma como essa tecnologia chega, exigindo acessibilidade, o que requer que a gente possa traduzi-la de maneira prática para que seja implementada.
Também há dificuldades relacionadas à capacitação, conectividade e assistência técnica nas pequenas propriedades rurais do RN?
É desafiador. O estado tem quase 70 mil domicílios com Cadastro de Agricultura Familiar (CAF), então, existe uma dificuldade de alcançar todos eles. Nós temos poucas assistências técnicas disponíveis, embora haja atores importantes como a Emater, o Sebrae e o Senar. Somente o Sabrae atendeu, no ano passado, cerca de 8 mil produtores rurais, enquanto o Senar atendeu algo em torno de 5 mil a 7 mil. Mas é preciso ampliar para que mais atores entrem nesse processo de capacitação. Imagine que todo produtor tem WhatsApp à mão e que, através dessa tecnologia, é possível chegar informações de áudio e vídeo, com orientações técnicas de como plantar, manejar e escoar a produção. Este é um exemplo de tecnologia que facilita o acesso e a orientação técnica, mas que ainda é restrita.
Como o Sebrae pretende aproximar produtores rurais de bancos, compradores, supermercados, restaurantes e como trabalha para agregar valor aos produtos do campo?
A gente tem os projetos setoriais que trabalham o produtor em cada especialidade. O intuito é que ele possa se formalizar no processo produtivo para começar a manejar de forma correta por meio de uma assistência técnica contínua. Depois, vem o mercado, onde nós entramos com o Feito Potiguar, um programa de valorização de tudo que é produzido no RN. A ideia é ampliar mercado, com participação em feiras, rodadas de negócios, exposições nacionais e internacionais, além de aproximação com redes de supermercados e restaurantes que possam comprar desses pequenos negócios.
Qual é o potencial das pequenas agroindústrias para movimentar a economia e gerar empregos no interior do RN?
As agroindústrias têm a ver com agregação de valor, que é o que garante a saída de uma commodity para uma margem maior de venda de um determinado produto. Essa verticalização é essencial para o estado crescer em termos de produção, de PIB [Produto Interno Bruto], de geração de emprego e renda. Mas a gente precisa avançar na tecnologia no tocante ao beneficiamento de camarão, de frutas, da castanha, do açaí, dentre outros. Hoje, as agroindústrias são extremamente relevantes e precisam ter a atuação ampliada, mas esse ainda é um desafio nosso.
Como o Sebrae tem incentivado a adoção de práticas de sustentabilidade nas pequenas propriedades rurais e de que forma isso pode aumentar a competitividade dos produtores?
A sustentabilidade é uma tendência mundial. No contexto atual, aqueles que não atrelam práticas sustentáveis ao processo produtivo, gastam mais. Sob a perspectiva da agricultura, há valor agregado, por exemplo, na redução de custos de matéria-prima quando o produtor olha para a bioeconomia em vez de utilizar defensivos agrícolas, que são muito caros. A produção de bioinsumos aqui passa a ser um grande aliado. Mais do que isso: ocorre uma melhoria de qualidade de vida desse agricultor que está manejando um produto que não faz mal à saúde. Essas mudanças, muitas vezes em virtude de custo, também acabam modificando a mentalidade do produtor e levando algo novo para o mercado.
A sustentabilidade passou a ser uma condição fundamental para a agregação de valor e para o equilíbrio financeiro de uma propriedade. Há outros exemplos como o reúso da água, fundamental na região do semiárido. O custo hídrico é muito alto, e muitos agricultores não conseguem ampliar a produção, então, trabalhar esse reúso é uma solução que gera economia e insere novas práticas de valor capazes de viabilizar uma atividade e posicionar para uma nova economia como negócio de impacto socioambiental positivo.
De que forma o Sebrae enxerga o potencial dos negócios de impacto no campo e quais iniciativas podem aliar geração de renda, inclusão social e preservação ambiental no meio rural?
A Fazenda Matina, em Macaíba, tem uma produção de alimentos baseada na agricultura orgânica e na agroecologia, onde são produzidos tomate, macaxeira, cebola e hortaliças, com inserção de educação ambiental em toda a atividade. As portas da fazenda são abertas à visitação de escolas para que os alunos sejam inseridos na prática da sustentabilidade. Tudo é orgânico e certificado. Outro exemplo é a Associação dos Produtores de Ostras, em Tibau do Sul, que passou por um processo de manejo sustentável para a retirada de ostras do mangue, preservando o berçário natural, que é a Lagoa de Guaraíras.
É um manejo alinhado à chamada economia azul – a exploração dos recursos naturais relacionados às águas e ao mar, com práticas de conservação. Hoje são cerca de 80 produtores da comunidade costeira em Guaraíras, Tibau do Sul e Georgino Avelino que recebem apoio do Sebrae-RN. Os negócios de impacto no Brasil e no mundo só tendem a crescer. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mapeou 7,8 mil deles nas áreas rural e urbana. Ou seja, eles são uma realidade, um modelo que entendeu que não basta só lucrar e conversar apenas com o acionista principal do negócio, deve haver um diálogo com os demais atores, inclusive, do ambiente onde essa produção está instalada.
O acordo Mercosul-União Europeia pode abrir mercado para os pequenos produtores do agronegócio potiguar? Quais setores podem ser mais beneficiados?
É uma janela que se abre para o nosso mercado. O acordo é gigantesco para nós e para toda a UE, que pode enviar produtos ao Brasil. Ao mesmo tempo em que é uma oportunidade, é também uma ameaça. Imaginemos a questão dos vinhos. Muitos rótulos irão entrar no país em virtude do tratado, então, precisamos nos preparar para esse processo de concorrência. No entanto, de modo geral, considero extremamente relevante para o Brasil e para o RN – no nosso caso, se olharmos a fruticultura, podemos citar que a exportação de uvas já está isenta de tarifas. É importante dizer que estamos falando de um mercado [o europeu] com um nível de consciência de sustentabilidade enorme, então, nós precisamos fazer o dever de casa, com ajustes para que os nossos produtos cheguem até lá da melhor maneira possível.
Como o artesanato, a gastronomia e a economia criativa podem se integrar ao agro e ampliar a renda das famílias rurais?
É preciso estimular a observar além do que é produzido. A gente faz isso com a Rota dos Queijos, uma oportunidade para que os turistas possam conhecer todo o processo produtivo. Tudo acontece por meio do Feito Potiguar, onde nós conseguimos colocar as histórias dentro dos restaurantes. Na saída desses estabelecimentos, a gente atrela a economia criativa, o artesanato e a cultura. É um verdadeiro combo de experiências da nossa identidade.
Quais cadeias produtivas potiguares apresentam maior possibilidade de crescimento nos próximos anos?
O café é uma delas, porque é um produto de grande demanda mundial. O açaí, do mesmo modo, segue crescendo com o encadeamento de produtores, mas também temos a cadeia leiteira com uma qualidade bastante elevada em razão da melhoria genética do nosso rebanho, além dos queijos e iogurtes.
Anunciado em 2024, como está a implantação do hub de inovação do agro e quais resultados concretos já foram alcançados?
O hub ampliou a atuação, entendo que era preciso expandir. Com isso, surgiu o Hub do Leite, que fica na Escola Agrícola de Jundiaí, com o desafio de trazer inovação para a cadeia leiteira, além do PotiAgro, em Mossoró, com vocação para a fruticultura, voltado ao bioinsumo, agricultura regenerativa e mecanização da agricultura familiar. E estamos agora com mais um desafio do ELI Agro direcionado à fruticultura, cadeia leiteira e aquicultura, que têm muito potencial de crescimento.
No ano passado, o desafio atingiu mais de 150 alunos, os quais criaram diversas agritechs [startups com foco em soluções para o campo] – duas, inclusive, tiveram os registros patenteados. O ELI Agro é fruto do nosso hub, que tem, ainda, grupos de trabalho prioritários para a apicultura e a meliponicultura. O hub do agro é uma forma de unir os desafios enfrentados pelos produtores rurais às soluções desenvolvidas por universidades e startups.
QUEM
Mona Nóbrega, de 42 anos, é formada em Administração pela UFRN, especialista em finanças, controladoria e auditoria, com mestrado na área de Inovação e Tecnologia, também pela UFRN. Atua no Sebrae desde 2006, onde iniciou como trainee, foi tesoureira por sete anos, coordenou projetos de desenvolvimento rural e esteve, durante oito anos, à frente de projetos de economia circular, economia inclusiva, negócios de impacto, sustentabilidade e ESG. Há três anos, assumiu a gerência da unidade de Desenvolvimento Rural e Negócios de Impacto.

