O Cais do Sertão, equipamento cultural do Governo de Pernambuco gerido pela Empresa de Turismo de Pernambuco (Empetur), recebe a exposição “As Marcas do Ferro na Cidade do Recife”, realizada pelo coletivo Porãozinho dos Ventos – Espaço de Vida. Em cartaz no Espaço Todo Gonzaga até 8 de novembro, a mostra reúne trabalhos que exploram texturas, relevos e detalhes de estruturas de ferro presentes na paisagem urbana da capital pernambucana, transformando elementos cotidianos em matéria-prima para a criação artística.
A ideia da exposição surgiu de maneira espontânea, durante uma tarde de atividades do coletivo. Um dos integrantes observou o desenho preservado de um antigo cruzamento de bondes entre as ruas do Bom Jesus e Barbosa Lima, no Bairro do Recife. A descoberta despertou o interesse do grupo em investigar artisticamente as marcas deixadas pelo ferro na cidade. “Esse episódio despertou nosso olhar para começar a explorar isso plasticamente”, conta Saulo Nogueira, diretor e idealizador do Porãozinho dos Ventos.
Com aproximadamente seis anos de atuação, o Porãozinho dos Ventos é um coletivo experimental formado por jovens e adultos neurodivergentes que foram alunos de Saulo Nogueira. Os encontros tiveram continuidade após o período de formação, com a inserção social como um dos principais objetivos do grupo. A pesquisa específica sobre as marcas de ferro do Recife começou há cerca de três anos, após algumas experiências anteriores, e se desenvolve por meio de vivências de campo e experimentações artísticas que estimulam a percepção, a expressão e o trabalho coletivo.
A amostra reúne trabalhos de 12 artistas, e as obras são produzidas coletivamente: os participantes atuam juntos em cada trabalho, alternando impressões, pinturas e intervenções. O processo resulta em grandes composições, com painéis que chegam a três metros, nos quais diferentes percepções e formas de expressão se encontram. Durante as observações pela cidade, os integrantes identificam detalhes que costumam passar despercebidos na rotina urbana.
Um exemplo é a percepção de Victor Vinicius Oliveira sobre a beleza plástica das tampas de bueiros mais antigas, cujos desenhos e relevos, segundo sua observação, contrastam com os das peças modernas que vêm substituí-las. O olhar do artista evidencia como estruturas utilitárias também podem carregar características visuais singulares e despertar novas reflexões sobre a paisagem urbana e suas transformações.
O processo criativo se relaciona com diferentes pontos do Recife, incluindo o Bairro do Recife, a Praça da República, o Morro da Conceição e os bairros de Casa Amarela e das Graças, visitados pelo grupo em suas experiências de campo. Entre as estruturas que servem de inspiração estão tampas de bueiros, grades de janelas antigas, trilhos de bonde e elementos metálicos do Marco Zero.
Entre as técnicas utilizadas está a frottage, procedimento em que os artistas colocam papel sobre superfícies com relevo e utilizam giz de cera para registrar suas formas. Ao transferir para o papel as marcas presentes no metal, o grupo evidencia padrões, símbolos e texturas que normalmente permanecem em segundo plano na paisagem. A pesquisa também envolve a produção de pigmento ferruginoso a partir de resíduos de ferro, vinagre e açúcar, explorando as possibilidades de transformação da ferrugem em novas cores e texturas. As obras incluem ainda referências a motivos Adinkra, símbolos associados a tradições dos povos Akan, da África Ocidental, identificados pelo grupo nas estruturas observadas.
O projeto conta ainda com apoio institucional da Guarda Civil Municipal do Recife, do restaurante Budega de Véio e da padaria Brotfabrik. Atualmente, utiliza uma garagem no bairro de Casa Amarela para armazenar parte dos trabalhos. A experiência itinerante, desenvolvida principalmente em campo, integra a dinâmica de atuação do grupo, que também pretende ampliar a área de pesquisa em uma segunda fase do projeto, condicionada à obtenção de apoio financeiro e de espaço físico.
A exposição pode ser visitada no Espaço Todo Gonzaga, no Cais do Sertão, até 8 de novembro. O acesso ao museu é gratuito para o público visitante da mostra. O equipamento funciona de terça a sexta-feira, das 10h às 16h, com última entrada às 15h30, e aos sábados e domingos, das 13h às 18h, com última entrada às 17h30. O espaço fecha às segundas-feiras.
PROGRAMAÇÃO
Visita mediada à exposição
Dias 14 e 21 de outubro, a partir das 14h
Local: Espaço Todo Gonzaga, Centro Cultural Cais do Sertão
Entrada gratuita
Roda de conversa — “Os ferros do Recife que contam histórias”
Dia 28 de outubro, às 15h
Local: Espaço Todo Gonzaga, Centro Cultural Cais do Sertão
Entrada gratuita
Formação/oficina com professores da rede municipal do Paulista
Dia 29 de outubro, às 14h
Funcionamento Cais do Sertão
Terça a sexta das 10h às 16h
Sábados e domingos das 13h às 18h
*Última entrada sempre 30 minutos antes do encerramento
Ingressos
R$ 10 e R$ 5 (meia)
Nas terças-feiras, a entrada é gratuita
Agendamento de escolas são realizados via e-mail, através do agendamento@caisdosertao.pe.gov.br.







